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Eu desenvolvi um sistema batizado de Claudenexões para me ajudar a fazer relações no meu Gabinete de Pensamentos, que passou de 8 mil entradas ao longo de uma década, entre diário pessoal, pensamentos, curiosidades, anotações sobre livros, filmes e games.
Softwares como Obsidian (que eu uso), Notion e similares ajudaram a popularizar o conceito de um "Segundo Cérebro". A ideia é que o nosso cérebro biológico (que eu chamo de wetware) é ótimo para ter ideias, mas tem dificuldade para guardá-las. O segundo cérebro é um sistema externo e digital onde você captura e organiza tudo isso, de modo que o conhecimento fique disponível quando você precisar dele, em vez de depender da memória.
Mas o problema que ninguém conta sobre o tal segundo cérebro: Você anota tudo, conecta com disciplina, e cinco anos depois tem um arquivo lindo que não consegue mais ler inteiro. A nota de hoje devia conversar com algo que escrevi em 2021. Isso porque, segundo os neurologistas, o nosso "primeiro cérebro" de massa cinzenta consegue trabalhar com 4 a 6 variáveis (chunks) ao mesmo tempo, algo chamado memória operacional.
Mas sabe quem consegue levar em conta milhares de variáveis ao mesmo tempo em sua janela de processamento? O Claudinho. IAs são ótimas em encontrar padrões, semelhanças em datasets gigantescos, justamente uma dificuldade do wetware.
As Claudenexões funcionam assim: quando tenho algumas anotações pessoais sobre um assunto, peço para o Claude Code ligado ao Gabinete buscar conexões com minhas próprias ideias do Gabinete.
Por exemplo, reli Solaris, de Stanislaw Lem, e a IA ligou o oceano a uma nota velha minha sobre memória ser invenção. Solaris não materializa a mulher real; materializa a projeção que o cérebro do Kelvin guardava dela. Ligou a mente coletiva de Pluribus com princípios budistas de expansão de empatia e percepção do ego, tema que interessa no budismo. Anotei "The Boroughs", série em que uns idosos num asilo são caçados por monstros. O Claude apontou o que eu não tinha enxergado, cruzou isso com pensamentos meus sobre morte, como, para seres mortais como nós, todos são doentes terminais (alguns só sabem que vão morrer antes), que é preciso saber morrer para aproveitar a vida. Ideias escritas anos antes, que eu dificilmente iria conectar pela memória de wetware.
Essas ideias permitem o que o escritor Tiago Forte chama de "começar com abundância". Eu não encontro a temida página em branco quando for finalizar meus pensamentos, mas um conjunto relevante das minhas próprias ideias. A IA parou de ser uma "resumidora em bullets" e virou assistente de referências de um arquivo grande demais pra minha cabeça. Com benefícios inclusive no trabalho, Claudenexões já foram feitas de dificuldades recorrentes tanto no meu workflow quanto de outras equipes.