![[1SA O dia que o tédio morreu.png]] >*“O tédio é uma tendência que temos de não estarmos ocupados cognitivamente com outra coisa, o que faz com que nosso sistema de pensamento passe a usar uma parte do cérebro chamada 'Rede de Modo Padrão'. Nesse modo, que entra em ação na ausência de qualquer outro estímulo, somos obrigados a encarar as grandes questões de significado — que, por sua própria natureza, são desconfortáveis — em nossas vidas.” - [Arthur C. Brooks](https://www.openculture.com/2025/10/the-surprising-power-of-boredom.html)* Eu nunca esqueci o dia em que o Tédio morreu. Eu vi, eu estava lá. Quer dizer, estava no Twitter. O Tédio faleceu em um elevador em Londres, no dia 4 de fevereiro de 2009. O ator britânico Stephen Fry estava lá dentro com ele quando a caixa de metal quebrou. Só que ao invés de esperar preso no levador junto do Tédio, que prometia lhe fazer companhia por algumas horas, Fry sacou o celular, abriu o app de uma "plataforma de microblog" chamada Twitter, tirou uma selfie com os colegas de elevador quebrado e postou na internet, tecendo a seguinte frase: "We could be here for hours. Arse, poo and widdle." Vou traduzir livremente essa frase para os anais da história como: “Pode ser que a gente fique aqui por horas. Bunda, cocô e xixi.” Na época o ator era recordista de seguidores na plataforma, (mais de de 100 mil!) e seguiu tweetando mais comentários como "Os engenheiros estão vindo, aparentemente" e se divertindo com as respostas dos tais "twiteiros". O The Guardian viu a repercussão e publicou uma nota, que basicamente foi "Stephen Fry fica preso no elevador e tweeta". E a matéria repercutiu muldialmente, inclusive no Brasil. Eu mesmo fui um dos "internautas" que viu no "website" da Folha de S.Paulo. Hoje essa história soa pitoresca, artefato de uma época mais inocente, pré-algoritmo. Na qual dividir o cotidiano ainda era novidade, não tinha uma saturação de conteúdo sobre... absolutamente tudo. Mas pra mim o que fica dessa história não foi a ingenuidade, foi nesse dia que eu percebi a mudança, que eu entendi. O Tédio subiu no telhado. Ele está em cuidados paliativos. Vai preparando a família. É só uma questão de tempo. Antes disso, Stephen Fry teria 40 minutos com o Tédio no elevador e ficaria por isso. Agora existe um Orkut que você leva no bolso, pra qualquer lugar, para 100 mil pessoas verem em tempo real que você ficou preso no elevador. Foi o marco que indicou pra mim que entramos na [[1SC A Era do pós-tédio]]. A maioria comemorou que o Tédio morreu. O Tédio incomoda. Ele nos força a desembarcar da montanha-russa de dopamina e olhar o mundo à nossa volta. E mais assustador ainda. A olhar para dentro. Quando não temos uma tarefa a resolver, quando não estamos entretidos até o pescoço com vídeos curtos e memes, o nosso cérebro muda de modo. Ele entra no que os neurologistas chamam de [[xSC Default Mode Network (DMN)]], um modo em que passamos a questionar as questões da existência. O que eu estou fazendo com a minha vida? O que eu quero de verdade? Ele faz o que é definido no livro [[xSL Uncommon Sense Teaching]] como "consolidação": um processo no qual o cérebro fortalece ligações neurais para absorver ideias e conceitos. O DMN ajuda a formar a nossa identidade. Ao longo da história da humanidade, o Tédio foi um dos grandes motores da criatividade. Nietzsche, Darwin, Murakami, Stephen King, todos adeptos de levar o tédio para passear em "caminhada para pensar" com a mente aberta. O mangaká Jiro Taniguchi chamou de [[xSC Estado de disponibilidade]]. Cartola de [querer se encontrar](https://youtu.be/56mu8KSUYqk?si=nnRLB7y-xfMYO2fJ). Quer uma fórmula simples para a criatividade? Pois lá vai: [[X2SC Tédio + curiosidade = criatividade]]. Então acho que esse já é um primeiro insight: **a mente produz seu melhor trabalho quando não está sendo forçada a produzir e quando não está distraída**. A triste verdade é que, no final, o Tédio só é chato para quem não gosta de ficar sozinho consigo mesmo. Para quem se ama o Tédio é o melhor amigo. Mas eu tenho novidades: o Tédio não morreu. Não de verdade. Está ainda na UTI, todo estrumbicado, mas a maquininha continua soltando "beeep" a cada batimento cardíaco progressivamente mais lento. Eu ainda vou visitar o Tédio no hospital. Pelos médicos já teriam desligado os equipamentos, a coisa mais humana a se fazer era acabar logo com o sofrimento dele abrindo o Tiktok, mas por enquanto ele ainda está lá. Eu tento ver o Tédio todo dia, mas nem sempre consigo. Correria do dia a dia e tudo mais. Mas sempre que eu o encontro o Tédio diz que está com saudade de você.